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Maurélio Machado (maurelio_machado@yahoo.com.br)

Escritor e Poeta

Natural de São Bento do Sul,SC, casado com Karim Voigt, pai de 2 filhas: Daniela e Fernanda e 1 filho: Fábio Luis, 1 neta Giovanna e 1 neto Eduardo.

 Membro da Academia Parano-Catarinense de Letras, ocupando a cadeira de nr. 41.

 Membro da Diretoria da Oficina de Poetas - formação de jovens poetas nas escolas públicas.

 Membro da Academia de Letras Infanto-Juvenil para Santa Catarina 

Municipal de São Bento do Sul

 Mérito Literário do Instituto Montes Ribeiro de Curitiba/Pr

 


Povo sem história, gente sem memória



Segunda, 25 de julho de 2011 14:29

Herculano levantava-se cedinho todas as manhãs.

Da pequena janela do quarto da pensão de Dona Joaquina antevia as condições do tempo lá fora: pouco frio, ameno, quente, ensolarado, chuvoso...a previsão do tempo sem aparelhos sofisticados.

Se bem que aquele velho ferimento na perna, há muito cicatrizado lhe dava uns toques quando o tempo estava previsto para chuva ou umidade.

Seu café era  frugal: algumas frutas e um copo tinto do grão negro, torrado e moído.

Saía para a ruela frente a moradia e normalmente dirigia-se ao boteco do Baltazar: saber das primeiras novidades da pacata e isolada cidadezinha do interior do sertão nordestino.

Sempre munido do inseparável e enorme caderno de capa dura onde constava em letras garrafais o pomposo e esquisito título: “A HISTÓRIA DE VALÃO SECO DOS BRACATINGAIS” (Vez por outra os companheiros flagravam Herculano abrindo-o e enfiando em algumas de suas páginas pequenos bilhetes que escrevia nos cantos das mesas do bar)

- Ô Baltazar, “sarta uma marvada, das branca, no capricho.”

- Mas não é muito cedo Herculano?  nem 9 horas da manhã inda  assucedeu?

- Nada Baltazar, os santo pulam das nuvem cedo e com muita sede!

Trêmulo apanhava o enorme copo de vidro e derramava um pouco da maldita no assoalho do boteco murmurando com devoção: pro santo, e de um golpe só jogava o aguardente no fundo da garganta amortecida pela cachaça.

Revirava os olhos, tossia, cofiava o bigodinho amarelado e ordenava:

- mais uma...

Após despedir-se dos ilustres amigos presentes retirava-se para o trabalho.

Aliás, um trabalho relevante, de importância histórica para a cidade, para a nação, nada menos que o relato da saga das primeiras famílias que fixaram residênciaem Valão Secodos Bracatingais antes denominada Coité dos Bugres pela grande quantidade de pés de coitizeiros (1) existentes na região.

Pelo menos uma vez por semana o “letrado”Herculano se dirigia à fazenda ou casa de um morador mais antigo para entrevistá-lo, saber das ocorrências do passado e relativas a história da futura e grandiosa Valão.

Como a região era pequena e de poucos moradores e ele já labutava a dezenas de anos na elaboração da biografia da cidade as visitas se repetiam  por muitas vezes nas residências dos Valonsenses.

Eles o recebiam, com um pé atrás e passaram a desconfiar da lisura de suas intenções.

Haviam várias razões para isso:

a) O caboclo ao mesmo tempo desconfiado admirava muito a retórica na boca de gente falante e atrevida como nosso personagem; 

b) As visitas se davam normalmente próximas a hora do almoço ou do jantar;

c) Herculando com frequencia solicitava uma contribuição em espécie (para encaminhamento à gráfica encarregada de compilar, revisar e posteriormente editar o grande livro).

E assim corria o tempo, os caboclos encantados com a terra que lhes dava boa colheita e criação, as mulheres embuchando e aumentando o número de habitantes da cidadezinha.

A vida passando lenta, perfumada, colorida e ensolarada fazendo os olhos negros dos nativos brilharem mais e mais.

Nos bailes os cantadores soltavam o vozerio exultando as belezas da terra e das mulheres.

Nada os inquietava quanto ao futuro pois era crença entre eles que o Senhor  sempre os proveria de tudo.

A riqueza pouco se lhes importava, a saúde, a moradia e a sustança, sim!

Herculano continuava sua peregrinação etílica-cultural.

Sentia-se um tanto cansado, carente de afeto e conforto maior, não se casara, a Nair, única mulher por quem um dia se interessou e havia se tornado sua noiva escafedeu-se com um alemão vindo da Capital das Alagoas que a levou...”bandida, traíra”.

Nunca mais pensou nas raparigas, umas boas doses da “marvada”  acalmava os instantes de tesura.

Certa noite ao retornar do boteco do Baltazar, após ingerir diversas doses das amargosas Herculando caiu na valeta quase frente a pensão.

Foi socorrido e levado para uma cidade próxima ( Valão Seco não tinha hospital).

Dois dias depois a notícia: Herculano havia recuperado a saúde e estava voltando para casa no dia seguinte.

Os amigos até organizaram um forró em sua homenagem.

O Boteco do Baltazar ostentava no alto do balcão a faixa com os dizeres: “Bem vindo Herculano, nobre escritor e companheiro.”

Quando a ambulância da prefeitura o deixou na calçada frente ao boteco a banda atacou de “Calcinha preta”e o povo começou a festança.

Tava muito bonito, sorrisos pra todos os lados, ambiente perfumado com água de cheiro, muita canha, mulher assanhada e música até de madruga.

Noite incrível,  madrugada inesquecível.

Manhã tristonha, encontraram Herculano junto ao meio-fio da calçada, morto.

Dias depois as autoridades vasculharam o quarto do escritor e se depararam com o único bem deixado pelo vivente, o enorme caderno com os dizeres: Ä HISTÓRIA DE VALÃO SECO DOS BRACATINGAIS”.

Atentos, abriram-no com todo o cuidado.

Alguns curiosos se acotovelavam sobre seus ombros no pequeno cômodo.

- NADA sentenciou o prefeito da cidade, aqui NÃO TEM NADA ESCRITO.

Herculano os levara no bico (2) a vida inteira.

(1)   Pés de coités – espécie de cabaça de cuia (Usada com vasilha doméstica)

(2)   Levar no bico – dar calote


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